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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

OXALÁ QUE...

A palavra OXALÁ (do árabe Enxá allah) tem como significado: se Deus quiser, queira Deus. É uma palavra de valor interjectivo. Segundo Mário Barreto, OXALÁ necessita de uma oração introduzida pela conjunção integrante QUE (pode ser omitida, segundo Barreto(1980 [1911]), Dias (1970 [1918]) e Cegalla(2008)) para denotar o objeto de desejo.

A) Oxalá que não chova no natal!

B) Oxalá não chova no natal!

Na análise sintática esta oração funciona como objeto direto([que] não chova no natal!) de OXALÁ. 
"No caso de elipse do conectivo QUE entre dois verbos, um subordinante e o outro subordinado, podemos incluir as construções de oxalá, que pede depois de si o verbo no subjuntivo precedido de Que" .(Barreto,1980). OXALÁ "expressa desejo e exige o verbo no subjuntivo.
Ex.: OXALÁ não sejam vãos tantos sacrifícios." (Cegalla,2008)
O mesmo vale, segundo Adriano da Gama kury (1991), para as palavras EIS e TOMARA, que também são palavras de valor intejerctivo, quando seguidas da conjunção integrante QUE, terão como objeto direto uma oração :
Ex.: TOMARA que chova. 
TOMARA: oração principal 
Que chova: oração subordinada objetiva direta
Isto vale para a palavra de origem controversa EIS, que sintaticamente possui valor de transitivo direto. 

Referências 
BARRETO, Mário. Novos estudos da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro, Presença, 1980.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. Edição de bolso. 2.ed.Rio de Janeiro : lexikon; Porto Alegre,RS: L&PM,2008.
DIAS, Augusto Epiphanio da Silva. Syntaxe histórica portuguesa. 5.ed. Lisboa: Livraria clássica editora , 1970.
KURY,  Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática.5.ed. São Paulo : Ática,1991. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

ADVÉRBIOS podem exercer a função de SUJEITO ?

Dentro da tradição gramatical,  o advérbio normalmente só exerce função de adjunto adverbial.

Porém,  além de poder ser predicativo do sujeito (A vida é ASSIM), ele poderá ser SUJEITO,  segundo os  estudiosos: Evanildo Bechara(2006), Eneida Bomfim(1988), Cláudio Cezar Henriques(2005). Vejamos exemplos da estudiosa Eneida Bomfim, os cinco primeiros, e do gramático Evanildo Bechara, os dois últimos:
 1) HOJE e AMANHÃ são dias de festa. 
2) ONTEM foi um dia péssimo. 
3) AMANHÃ será outro dia.      
4) AQUI é o melhor lugar do mundo. 
5)  continua um paraíso.
6) HOJE é segunda-feira. 
7) AQUI é ótimo para a saúde.

Segundo Henriques (2005): "A função de sujeito não é privativa de substantivos, pronomes e numerais. Os advérbios de base nominal e pronominal também podem desempenhar esta é outras funções que tradicionalmente não lhe são atribuídas.

Ex.: Não gosto DAQUI. Advérbio de base pronominal como objeto indireto.  

Ex.: O filme de HOJE está bom. Advérbio de base nominal como núcleo de adjunto adnominal : a locução adjetiva , neste caso , é formada por preposição + advérbio.

Ex.: ALI parece sujo. Advérbio de base pronominal como sujeito."

Só para fechar: Adriano da Gama Kury (1991) apesar de não mencionar explicitamente, faz uma citação com advérbio como sujeito :
Ex.: AMANHÃ é feriado nacional. (Aníbal Machado).

Referências 

BECHARA, Evanildo.  Lições de português  pela análise sintática .18.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006.
BOMFIM, Eneida. Advérbios. São Paulo : Ática, 1988.
HENRIQUES, Cláudio Cezar. Sintaxe portuguesa para a linguagem culta contemporânea: teoria e prática. 5.ed. Rio de Janeiro : EdUERJ,2005.
KURY,  Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática.5.ed. São Paulo : Ática,1991. 

domingo, 15 de novembro de 2020

O que é "SUJEITO PLEONÁSTICO" ?


 O sujeito pleonástico ou sujeito  duplo é um assunto pouco abordado pelos gramáticos.

O pleonasmo consiste numa repetição, "para fim expressivo, de termo já enunciado em determinada função sintática."(Kury,1991). Ex.: Os medíocres, ESSES  deixam-se levar sem resistência na torrente das inovações. (Mário Barreto apud Othon M. Garcia (2006).

Esta repetição é utilizada por uma necessidade expressiva, ou seja, um reforço para enfatizar o termo repetido. A repetição do sujeito, como nos lembra M.P. Ribeiro (2011), pode surgir depois de verbos causativos e sensitivos. Além disso, Ribeiro (2011) diz que o termo que se tornará pleonástico, ficará no início da frase. E que consiste  na antecipação de um termo nominal da oração, que depois se relembra, no lugar próprio, com um pronome na mesma função sintática.(Kury,1991).

Vejamos o exemplo de Ribeiro (2011):
Ex.: O MENINO (sujeito)/que veio comigo/ mandei-/O (sujeito) voltar.
 
Kury (1991):
"'Mas AS COISAS FINDAS,
muito mais que lindas,
ESSAS ficarão'(C.Drummond )
O pronome ESSAS , equivalente de AS COISAS FINDAS, é sujeito pleonástico."
 
Carlos Góes (1931) apresenta os seguintes exemplos de reforço do sujeito:
A)  O sujeito é repetido, porque se lhe segue um, ou mais vocativos: 
Ex.: Tu só, TU, puro amor... (Camões)

B) O sujeito é repetido, porque é cortado de orações incidentes :
Ex.: TU, QUE DIRIGISTE MEUS PASSOS...Tu, A QUEM DEVO todas as minhas inspirações...

C) O sujeito é repetido por ênfase :
Ex.: Este, ESTE é o meu Deus (Garrett).

Ex.: E se a lei, ESSA lei nefanda, batesse à minha porta... (Ruy Barbosa)

D) O sujeito é repetido por um pronome :
Ex.: O peito, ESSE, ESSE mal contido amor transborda (Machado de Assis)

E) O sujeito é reforçado por um expletivo idiomático :
Ex.:Faltam ELLES homens (Teix.de Vasc.)

E Mestre Said Ali (1964,p.105) afirma que para representar pleonasticamente o sujeito usa-se ESSE/ISSO:
EX.: A sciencia, ESSA é invulneravel (C.Castelo Branco). 

Enfim, apesar de não recomendado na escrita culta, não há problema na escrita literária que visa registrar este fenômeno linguístico. 

Referências 

ALI, M.Said.Gramática secundária e Gramática histórica da língua portuguesa.  Brasília : UnB, 1964. 

GÓES, Carlos. Syntaxe de regência.3 ed. Petrópolis, L.Silva & Cia, 1931.

KURY,  Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática . 5.ed. São Paulo : Ática, 1991. 

RIBEIRO, Manoel P. Gramática aplicada da língua portuguesa. 20.ed. Rio de Janeiro: Metáfora editora , 2011.

domingo, 9 de agosto de 2020

Complemento verbal locativo?


Como classificar o complemento dos verbos que necessitam de um termo locativo ? 

Adjunto adverbial, complemento circustancial, complemento terminativo, objeto indireto , objeto indireto adverbial, objeto indireto circustancial,  objeto indireto locativo ?

A classificação dos complementos de natureza adverbial 

1) Muitas classificações tanto quanto as divergências a cerca do assunto. A classificação dos complementos de natureza adverbial causa diferentes entendimentos e desentendimentos entre os nossos mais abalizados gramáticos normativos. Os verbos de movimento ou de situação  (chegar, ir, partir, seguir, vir, voltar, ficar, morar, etc.) pedem um COMPLEMENTO ADVERBIAL DE LUGAR, e não um ADJUNTO ADVERBIAL. 
Como o verbo ir exige a preposição A para ligá-lo ao termo locativo, muitos gramáticos veem aí um complemento verbal (obrigatório) e não um adjunto adverbial (dispensável ).

2) Entenda: alguns verbos exigem um termo locativo para completa o seu sentido. A ausência de complemento para o verbo ir deixaria a frase  sem sentido:
Ir a Belém 
Ir  (onde?)

Por isso, não poderíamos classificar o verbo ir como intransitivo (sentido completo), pois sem o termo locativo o sentido ficaria incompleto. 

3) Entretanto, como adverte Eduardo Carlos Pereira: "entre o complemento terminativo e o circunstancial nem sempre há limites rigorosos." E Francisco Fernandes (1990), no Dicionário de verbos e regimes, afirma que "não é fácil delimitar fronteiras entre adjunto adverbial(complemento dispensável) e complemento terminativo(complemento necessário) . O problema da classificação dos verbos,  seus complementos e o ofício de cada um destes tem sido objeto de sérias controvérsias(...)"

4) A Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) classifica como adjuntos adverbiais

5 ) Bechara (2006,p. 52) questiona a NGB :" Irei à cidade,
Voltei do trabalho,tínhamos a rigor de falar em verbos TRANSITIVOS ADVERBIAS,isto é, os que pedem como complemento uma expressão adverbial."

6) Rocha Lima (2000,p.252-3),na sua gramática,  diferencia adjunto advervial (termo acessório ) de complemento circunstacial (termo integrante). Para Rocha Lima, o COMPLEMENTO CIRCUSTANCIAL é  "indispensável a construção do verbo" :
Irei a Roma.
Morar em Paquetá.

7) Já Celso Pedro Luft (2002) classifica como objeto indireto, já que "circustancial é classificação semântica e não sintática".

8) Adriano da Gama Kury (1991) chama os verbos de movimento ou de situação  (chagar,ir,partir,seguir,vir,voltar, ficar ,morar,etc.) de verbos transitivos adverbiais quando pedem um COMPLEMENTO ADVERBIAL DE LUGAR que complete o sentido desses verbos. Nos diz ainda que José Oiticica denomina "verbos adverbiados". 

9) Em concursos públicos, as bancas seguem a NGB e a maioria dos gramáticos que classificam como adjunto adverbial, sendo o verbo intransitivo. Porém...a banca FCC segue a visão de Luft, classificando como verbo transitivo indireto e o complemento verbal, como objeto indireto. (Pestana,2019)

10) Enfim, o assunto é complexo, mesmo depois de muito tempo, ainda não se chegou a um consenso sobre a classificação do complemento desses verbos. É, provavelmente, a polêmica vai continuar. 

Referências 


BECHARA, Evanildo.  Lições de português  pela análise sintática . 18.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006.

FERNANDES, Francisco. Dicionário de verbos e regimes. 37.ed. São Paulo: Globo, 1990.

KURY,  Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática . 5.ed. São Paulo : Ática, 1991. 

LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 38.ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 2000.

LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência verbal. 8.ed. São Paulo : editora Ática, 2002. 

PEREIRA, Eduardo Carlos. Gramática expositiva : curso superior.  94.ed. São Paulo: Companhia editora nacional, sem data. 

PESTANA, Fernando. A gramática para concursos públicos. 4.ed.  Rio de Janeiro. Editora método,  2019.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Complemento relativo vs objeto indireto



NGB (Nomenclatura gramatical brasileira,1959), que unificou a nomenclatura das gramáticas brasileiras, não faz distinção entre complementos verbais  preposicionados, ou seja, classificando todos os complementos introduzidos por preposição necessária como objetos indiretos. Mas alguns autores separam complemento relativo de objeto indireto.

 A maioria dos gramáticos segue a NGB, entretanto... lá vem polêmica...há dois gramáticos de peso, Rocha Lima e Evanildo Bechara, que fazem a separação entre complemento relativo(CR) e objeto indireto(OI).


  A estudiosa Vera L. Rodrigues(2003) é a favor da separação, seguindo o pensamento de Lima e Bechara. Já Olmar G. da Silveira (1996) argumenta que a questão necessita de estudos mais profundos. E Adriano da Gama Kury (1991) diz: " nem doutrinária, nem, muito menos, didaticamente,  nos parece aconselhável tal separação: em primeiro lugar, não se fez ainda, em nossa língua, o estudo definitivo que está por merecer o objeto indireto, apesar da tentativa de Rocha Lima (Uma Preposição Portuguesa); e a presença obrigatória da preposição sem valor cirscuntacial é suficiente para a caracterização estrutural dessa função sintática."

Objeto indireto(OI).

OI complementa verbos transitivos indiretos (VTI) e verbos transitivos diretos e indiretos (VTDI)  que necessitam de um complemento preposicionado. Aliás, para Lima (2000) e Bechara (2002,2009), os OIs representam à pessoa ou à coisa "a que se dirige ou destina a ação ou estado que o processo verbal expressa" (Lima,2000). São sempre introduzidos pelas preposições A (mais comum) e PARA, e podem se substituídos, na terceira pessoa, pelos pronomes átonos lhe/lhes

Dar esmola a um mendigo / Dar-lhe esmola (R.Lima)

Mandei flores para a noiva / Mandei-lhe flores(R.Lima).

Complemento relativo(CR)


 Já o CR é ligado ao verbo pelas preposições a ,com,de,em,etc. Tendo valor de objeto direto(OD) (Lima, 2000). Ele não representa o ser ou a coisa beneficiado ou prejudicado na ação verbal, mas o ser sobre o qual recai a ação. E não pode ser substituído por lhe/lhes, mas por pronome pessoal tônico ela (s)/ele(s) precedido da preposição exigida pelo verbo. 

Gosto de Alice.

Gosto-lhe(errado)

Gosto dela(correta)

Objeto indireto(OI) X   Complemento relativo(CR)


Semanticamente o CR está mais próximo do OD (o ser sobre o qual recai a ação.), mas formalmente está próximo do OI (pela exigência da preposição).

Amo você (OD). / gosto de você (CR)

5)) Como diferenciar  OI do CR quando introduzidos pela preposição A?

A)Prefiro ele a você.

B)Desejo felicidades a você.

A frase A não representa um ser beneficiado, não pode ser substituído por lhe, por isso é CR. Já a frase B representa o ser beneficiado e pode se substituído por lheDesejo-lhe felicidades.


 Bechara (2009) afirma que é quase nula a frequência numa frase de OD com CR

A jovem pôs os livros (OD)  na estante (CR).

Continua o eminente gramático dizendo que muitos verbos alternam a sua construção com OD ou CR :

ajudar a missa (OD) / ajudar à missa (CR).

Para LimaOI não se pode apresentar sob forma oracional, isto é , não existe oração subordinada objetiva indireta. Bechara diz o contrário.

  Apesar de Marcelo Rosenthal (2011) dizer que nos concursos públicos,  não é feita tal distinção (CR x OI), sendo os dois casos absorvidos pelo objeto indireto. No entanto...
Vejamos como isto caiu numa prova... 
(IBADE- PREF. DE VILHENA/RO-ADVOGADO-2019)
A oração subordinada transposta substantiva aparece inserida na oração complexa exercendo funções próprias do substantivo. Em qual das alternativas abaixo a oração subordinada transposta substantiva aparece exercendo função de objeto indireto? 

(AEnildo dedica sua atenção a que os filhos se eduquem (GABARITO)
(B) O pai viu que a filha saíra 
(C) Todos gostam de que sejam premiados 
(D) A verdade é que todos foram aprovados 
(E) Convém que tu estudes

Todas as frases da questão são da gramática do BecharaREPARE  na letra C...Isso mesmo, ela não foi considerada como OI, o que nos faz presumir que foi encarada pela banca como CR. Na reposta aos recursos, a banca usa a gramática do Bechara para defender o seu gabarito. Como não havia bibliografia específica para o concurso, esta questão deveria ter sido anulada.

Referências 

BECHARA, Evanildo.  Gramática escolar da língua portuguesa. 1.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

BECHARA, Evanildo.  Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira & Lucerna, 2009.

KURY,  Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática . 5.ed. São Paulo : Ática, 1991. 

LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 38.ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 2000.

RODRIGUES, Vera Cristina. Dicionário Houaiss: Verbos, conjugação e uso de preposições. 1.ed. Rio de Janeiro : Objetiva ,2003.

ROSENTHAL, Marcelo. Gramática para concursos.5.ed.Rio de Janeiro.  Campus concursos, 2011.

SILVEIRA, Olmar Guterres da. Reflexão sobre os fatos de sintaxe(p.42-47). Padrões frasais do Português(p.48-51). In FREITAS ,Horácio Rolim de (org). A obra de Olmar Guterres da Silveira. Rio de Janeiro : Metáfora ,1996. 

OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE : PORQUÊ, PORQUE, POR QUÊ e POR QUE

Quem nunca teve dúvidas de quando usar um desses quatros porquês? Se tem um assunto espinhoso de língua portuguesa é este.  1) A...