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quinta-feira, 16 de julho de 2020

Face a


Expressão FACE À é condenada pela maioria dos gramáticos normativos.

 Em nossa língua culta, há as locuções em face a /em face de.

1)) O  gramático Cegalla (2008) faz o seguinte alerta: "locução censurada pelos gramáticos e não acolhida pelos dicionaristas, mas frequente nos meios de comunicação e na literatura de hoje: 'Face, porém, à situação surgida, o acirramento de uma disputa seria inevitável.'(Juscelino Kubitschek, Manchete, 9/10/93.)" E acrescentar que "esta locução talvez seja imitação do francês moderno: Les Douze face à la nouvelle Europe. / Les femmes face au préservatif."

2)) A supressão da preposição em (em face a) é considerado barbarismo fraseológico.

3)) José Maria da Costa (2004) lista os seguintes autores que não aceitam a locução: Napoleão Mendes de Almeida, Edmundo Dantès Nascimento, Geraldo Amaral Arruda, Luciano Correia da Silva e Arnaldo Niskier. E Macambira (1987,p. 95) diz que face a e frente a são coloquiais. Mas... sempre tem um  gramático para dizer o contrário. E, neste caso,  o Celso Pedro Luft (2002) é a voz divergente, que registra a locução sem maiores ressalvas. A expressão  em questão vem sendo usada a muito tempo, mesmo com a condenação dos gramáticos, em meios de comunicação e trabalhos acadêmicos.  Uma simples pesquisa no Google acadêmico comprova isso: 
 E sites de jornais:

Referências 

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. Edição de bolso. 2.ed.Rio de Janeiro : lexikon; Porto Alegre, RS: L&PM, 2008.

COSTA, José Maria da. Manual de redação profissional. 2.ed.Campinas: Millenium,2004.

LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência nominal. 8.ed. São Paulo: editora Ática, 2002. 

MACAMBIRA, José Rebouças. A estrutura Morfo-Sintática do Português. 6.ed. São Paulo: Pioneira,1987.

terça-feira, 7 de julho de 2020

A preposição é o seu valor


A preposição pode mudar totalmente o sentido de uma frase 


A preposição tem normalmente valor semântico dentro de um contexto ( há casos em que ela serve como mero conector).  O uso de uma preposição por outra causa mudança  semântica :


*A filha fala do pai

*A filha fala com o pai 

 *A filha fala sobre o pai 

*A filha fala contra o pai 

A frase ("Só é permitida a entrada de máscara.") nos causa riso porque entendemos que somente a máscara poderá entra, e não a pessoa. Mas, na verdade, o que ocorre aqui no uso pragmático, ou seja, no uso real do cotidiano da língua, é uma figura de linguagem: a metonímia , isto é,  a parte pelo todo. A máscara é tomada como parte de nós. Se na escrita, a frase acima semanticamente estaria equivocada, no uso real, dentro de um contexto, por exemplo, num restaurante, entenderíamos que somente pessoas usando máscaras poderiam entrar,  e não só as máscaras, até porque máscaras não podem andar. Não haveria equívoco. Então é isso: o povo  perceber que a máscara faz parte do corpo . Nestes tempos de pandemia, ela faz parte de todos nós. A frase poderia ser reescrita:

*Só é permitida a entrada de pessoas de máscara.

*Só é permitida a entrada  de pessoas com máscaras.

 A escrita necessita ser vigiada para evitarmos tais erros. Sei que é difícil, pois se não fosse, nenhuma gramática teria erros. O primeiro passo é praticar todos os dias com amor e carinho a nossa língua. 

OBSERVAÇÃO : Qualquer erro de gramática (ortografia, pontuação, concordância, etc) ou de teoria, por favor, faça um comentário apontando e será corrigido. Como qualquer ser humano podermos errar. Ficarei grato com a ajuda que venha para melhorar. 

#Para quem deseja saber mais sobre metonímia ( vale também consultar a parte de preposição destes livros):

BECHARA, Evanildo.  Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira & Lucerna, 2009.

BECHARA, Evanildo.  Gramática escolar da língua portuguesa. 1.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

CÂMARA JR.,Joaquim Mattoso.  Dicionário de linguística e gramática. 9.ed. Petrópolis : Vozes,1981.(p.167-8)

LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 38.ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 2000.

FIORIN, Luiz José; SAVIOLI, Francisco Platão.  Para entender o texto: leitura e redação. 17.ed.São Paulo :Ática, 2007. (Lição 14: Metáfora e metonímia, p.121-3)

PESTANA, Fernando. A gramática para concursos públicos. 4.ed.  Rio de Janeiro. Editora método,  2019.(p.830-1)



segunda-feira, 6 de julho de 2020

ÍDOLA existe ?


A forma ÍDOLA existe a muito tempo na língua portuguesa 

Alguns gramáticos, menos conhecedores do idioma, não aceitam a forma ídola. Eles argumentam que ídolo é a única existente na língua para se referi a ambos os sexos :

*Machado de Assis é meu ídolo.

*Clarice Lispector é meu ídolo

Para eles é imperdoável a seguinte frase:

Clarice Lispector é minha ídola.  


1)) A palavra ídola tem registro no dicionário de Moraes, um dos mais antigos da língua portuguesa. Além disso, é de largo uso nos tempos atuais em jornais, sites, blogs e na mídia em geral. A forma "ídala", de fato, é um coloquialismo e, por isso, deve ser evitado. Mas o caso de ídola é diferente. Sua formação esta dentro das regras da nossa morfologia. 

2)) José Maria da Costa, na sua coluna Gramatigalhas, indagado sobre o feminino de ídolo, assim respondeu : " Respondendo diretamente à indagação do leitor: ídolo é um sobrecomum, de modo que, sem variação de forma e sem distinção por artigo ou por acréscimo de determinativo acompanhante, diz respeito tanto a pessoas do sexo masculino como a pessoas do sexo feminino. Exs.: a) "Mílton Nascimento é o ídolo de muita gente" (correto); b) "Elis Regina é o ídolo de muita gente" (correto)." Com todo respeito ao autor do excepcional Manual de redação profissional, uma das coisas que tornou Costa conhecido foi sua pesquisa nos mais abalizados gramáticos normativos . Mas, nessa resposta, não há uma pesquisa profunda, por isso não deve ser levada em consideração. 


4)) Sérgio Rodrigues, na coluna Sobre palavras, demostra não conhecer a história da palavra ao escrever: "Em “ídala” a brincadeira fica ainda mais clara, pois a flexão de gênero, caso existisse na língua formal, seria ídola."

5)) Pasquale Cipro Neto registra que as palavras ídola e ídolo existem e que a última pode ser usada para ambos os sexos. 

6)) José Joaquim Nunes (1975) numa nota de rodapé, de sua gramática histórica, afirma: "o autor da EUFROSINA dá a diabo e ídolo os femininos DIABOA (do antigo masculino DIABOO) e ÍDOLA(...)".

7)) Assim a palavra ídola é  registrada em dicionários e gramáticas . É "Uma falsa afirmação que muitos sabichões vendem como verdade é a de que “ídolo” só se usa no masculino, e de que a palavra “ídola” não existe."(blog Dicionarioegramatica)


8)) Para acabar com o assunto basta dizer que o VOLP,  da ABL, registra a palavra. Assim também é registrada pela Academia das ciências de Lisboa, pelos dicionários HouaissPriberamCaldas Aulete, Cândido de Figueiredo. E o site Ciberdúvidas também reconhece a palavra ídola

9)) Para finalizar deixo aqui um link para este artigo fantástico sobre a palavra ídola no blog dicionarioegramaticaSim, existe “ídola”, feminino de “ídolo”.

1- OBSERVAÇÃO : Todos os dicionários Houaiss, Caldas Aulete, Priberam e o VOLP são virtuais. 

2-OBSERVAÇÃO : Qualquer erro de gramática (ortografia, pontuação, concordância, etc) ou de teoria, por favor, faça um comentário apontando e será corrigido. Como qualquer ser humano podermos errar. Ficarei grato com a ajuda que venha para melhorar.

Referências 

COSTA, José Maria da . Ídolo tem feminino?.  Acesso em 05 de julho de 2020. 

RODRIGUES, Sérgio. Gênia’ e ‘ídala’ são palavras aceitáveis?. Acessado em 05 de julho de 2020. 

NUNES, José Joaquim. Compêndio de gramática histórica portuguesa(fonética e morfologia ). 8.ed.Lisboa: Livraria clássica editora,1975.

sábado, 4 de julho de 2020

Concordância com a expressão "Número de..."

CUIDADO com a expressão O NÚMERO DE




Regras básicas  de concordância com expressões partitivas verdadeiras

1)) Vamos às regras básicas  de concordância com expressões partitivas verdadeiras , como “a maioria de”, “a minoria de”, “grande parte de”, “mais da metade”, etc.

A maior parte/um terço /a maioria dos professores aderiu à greve. (singular)

Mais da metade dos professores não compareceram à reunião (plural)

Os verbos ficaram  no singular ou plural, isso acontece porque o verbo pode concordar com a  expressão partitiva (“a maior parte”, “mais da metade”)  ou com o  especificador no plural (“dos professores”).
Exs.:
A menor/a maior parte dos professores não gostou/gostaram da semana pedagógica.

Boa parte dos professores concorda/concordam com a política da secretária de educação.

Menos/mais da metade dos professores lembra/lembram daquela aluna.

Existe uma sutil diferença de sentido:
a) com o verbo no singular, coloca-se ênfase na noção de conjunto, de grupo (foco na expressão “a menor/maior parte”, “boa parte”, “menos/mais da metade”).
b) com verbo no plural, coloca-se ênfase  nos especificadores  ( “professores”), ainda que esta seja a forma menos usual de redigir esse tipo de oração. Como recomendação, dê preferência ao singular.

2)) Depois dessa explicação, conheça algumas falsas expressões partitivas: o valor das..., a nível de..., o número de ..., o preço de...as quais são usadas de forma equivocadas pelos escritores cultos contemporâneos. 

3)) Domingos P. Cegalla (2008) afirma que com a expressão "o número de..." usa-se o verbo no singular para a oração principal e no plural para oração subordinada . SÓ o "verbo da oração adjetiva deve concordar com o substantivo que se segue à palavra número: O número de MOÇAS que se INSCREVERAM 
no concurso foi maior do que esperávamos. / É impressionante o número de PESSOAS que se 
DEIXAM enganar. O verbo da oração principal fica no sin- 
gular, concordando com o subst. número."

4)) A respeito da falsa expressão partitiva tratada aqui, Pasquale Cipro Neto
diz: "É preciso tomar cuidado particular quando faz parte do sujeito a palavra "número" ("o número de pessoas", "o número de inscritos" etc.). (...) o termo "número" não indica idéia de grupo, conjunto etc. Nesses casos, o verbo concorda com a própria palavra "número", ou seja, fica no singular: "O número de participantes caiu"; "Neste ano, o número de crimes dobrou".

5)) E continua : "A situação mais delicada não é nenhuma das vistas até agora. Pense neste caso: "O número de jogadores brasileiros que se transferem para a Europa não pára de aumentar". Por que um verbo no plural ("transferem") e outro no singular ("pára")? Porque "transferem" se refere a "jogadores", enquanto "pára" se refere a "número" (os jogadores se transferem; o número não pára de aumentar)."

6)) E acrescentar: "Nos textos jornalísticos ou nos que tratam de economia, estatística etc., são comuns frases em que, por influência da proximidade entre as formas verbais, a concordância é "igualada" (algo como "O número de médicos que participam desses projetos cresceram"). Não custa insistir: a forma adequada é "O número de médicos que participam desses projetos cresceu" (os médicos participam; o número cresceu)."

7)) Indo para o mundo dos concursos públicos. Vejamos esta questão da banca Cespe, assistente, CNPq, 2011 :
"O número de trabalhadores na área científica vem aumentando com tal rapidez que estão, atualmente, em 
atividade 90% de todos os que, até hoje, se dedicaram à 
ciência."
Julgue os itens a seguir, com relação às estruturas linguísticas do 
texto. 
Seria mantida a correção gramatical do texto caso a forma 
verbal “vem” (R.22) fosse substituída por vêm, sendo 
estabelecida, assim, a concordância com o substantivo 
“trabalhadores” (R.21).
GABARITO: certo.  Pela doutrina exposta aqui, o item deveria ser considerado errado. Como a locução verbal faz parte da oração principal, o verbo deve ficar no singular concordando com "número". 

8)) Enfim, pelo exposto, a expressão "o número de" e outras falsas expressões partitivas ficam com o verbo no singular, e não no plural. 

#OBSERVAÇÃO : Qualquer erro de gramática (ortografia, pontuação, concordância, etc) ou de teoria, por favor, faça um comentário apontando e será corrigido. Como qualquer ser humano podermos errar. Ficarei grato com a ajuda que venha para melhorar.


Referências 

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. Edição de bolso. 2.ed.Rio de Janeiro : lexikon; Porto Alegre,RS: L&PM,2008.

NETO, Pasquale Cipro. "O número de pessoas que...".  https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1809200305.htm acessado em 1 de Julho de 2020. 

OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE : PORQUÊ, PORQUE, POR QUÊ e POR QUE

Quem nunca teve dúvidas de quando usar um desses quatros porquês? Se tem um assunto espinhoso de língua portuguesa é este.  1) A...