quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS

1)) A língua portuguesa no Brasil não é homogênea, como nenhuma língua é. As variações ocorrem por causa de diferentes fatores históricos, regionais, socioculturais e socioeconômicos. Essas variações acontecem tanto na parte fonética quanto na parte morfológica, sintática, léxica e semântica.
 2)) Vejamos uma questão sobre isso: (Nucepe/Uepi-SEMAG- Professor de Língua Portuguesa-2020)  
 Vantagens da unificação ortográfica 
Patenteiam-se as vantagens de uma unificação ortográfica pelo esforço por que  de há muito vêm lutando as duas academias, até chegar a este momento histórico de sete nações independentes se reunirem para a concretização desse propósito comum. A possibilidade dessa unificação e os resultados positivos de toda sorte que dela se hão de colher são atestados pelas nações em cujas línguas os textos são escritos conforme uma unificação ortográfica. Assim se apresentam, por exemplo, os textos — oficiais ou não — em espanhol, ainda que editados na Espanha, no México ou na Argentina, guardadas as particularidades linguísticas que distinguem cada uma dessas variedades. 
(BECHARA, Evanildo. A nova ortografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, pág. 27 - ADAPTADO) 
26. No segundo parágrafo do texto, a referência às variedades linguísticas regionais de Espanha, México e Argentina, nações que têm o espanhol como língua oficial, sinaliza que essas variedades são de natureza 
a) diafásica. 
b) diatópica. 
c) diacrônica. 
d) diastrática. 
e) situacional.

Típica questão para professores-concurseiros  de língua portuguesa. Vamos entender cada uma das alternativas sobre variações linguísticas: 
A) variação diafásica (situacional) é quando a língua apresenta mudanças dependendo do contexto. Ninguém usar o mesmo modo de falar num bar e na igreja. Assim o falante num contexto poderá ser formal (Faculdade, trabalho, cerimônia de casamento ou formatura dependendo da intimidade com os interlocutores )ou informal(amigos, família,  bar). Lembre-se de que tanto a língua falada quanto à escrita podem ser formal e informal , será o contexto que definirá. Ex.: Você escreve um e-mail formal para um desconhecimento. Para um amigo, poderá utilizar uma linguagem informal.  

B) GABARITO
 A variação diatópica é quando uma língua apresenta variações de uma região para outra ( geográfica,  regional , dialetal) . Essas variações se relacionam com o léxico, com construções sintáticas e ao sentido das palavras. Assim a língua espanhola é a mesma , porém com mudanças de um país para outro. 

C) A variação diacrônica (histórica) é quando uma língua sofre mudanças através do tempo. E quando dois estágios da língua podem ser comparados para demostrar essa mudança. 

D) A variação diastrática (social,sociocultural) a língua apresenta variações dependendo das camadas sociais distintas (socioeconômico) e grupos sociais variados (profissionais da mesma área : políticos, jornalistas, jogadores, etc.). Gírias e jargões são muito usados.

E) É uma pegadinha da banca, tem relação com a variação diafásica.

Bacana esta questão.

              Referências 
BECHARA, Evanildo.  Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira & Lucerna, 2009.
CUNHA, Celso & CINTRA , Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 3.ed. Rio de Janeiro : Nova fronteira, 2001.
PESTANA, Fernando. A gramática para concursos públicos. 4.ed.  Rio de Janeiro. Editora método,  2019.
RIBEIRO, Manoel P. Gramática aplicada da língua portuguesa. 20.ed. Rio de Janeiro: Metáfora editora , 2011.

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

NOMES PRÓPRIOS INCOMUNS

1)) Dentro da lexicografia , existe um ramo que estuda a origem dos nomes próprios: ONOMÁSTICA. Ela se ocupa de estudar os nomes próprios de pessoas (Antroponímia) e os nomes de lugar( Toponímia). Silveira Bueno, baseado em Leite de Vasconcelos,  acrescenta à Pantonímia (estudo de "todos os demais nomes próprios alheios ao homem e ao lugar , tais como : nomes de astros, de ventos , de entidades mitológicas,  etc.").  Bueno  também apresenta a divisão do estudo dos nomes próprios conforme Rebelo Gonçalves:
Toponímia - nomes de lugares.
Antroponímia - nomes de pessoas.
Patronímia- nomes que indicam a origem e a linhagem da pessoa.
Prosonímia- apelidos humanos.
Etnonímia- nomes de povos ,tribos , castas , comunidades religiosas e políticas.
Hieronímia- nomes sagrados.
Mitonímia- nomes de seres da mitologia e da fábula.
Astronímia- nomes de astros, estrelas, etc.
Crononímia- nomes dos séculos , das eras ,dos meses, etc.
Heortonímia- nomes das festas. 
Biblionímia- nomes dos livros e das obras célebres da literatura universal. 

2)) Drummond analisa que "o nome próprio extravagante é motivo de riso, que faz sofrer seu portador em benefício do fígado alheio, mas sua motivação é sociológica e psicologicamente séria". Drummond destaca que, "na hora de colar ao filho uma etiqueta para toda a vida, não só a imaginação se põe a trabalhar. Entram no jogo o espírito religioso, a definição política, a fascinação por supostos heróis do dia, o desejo de transferir ao recém-nascido virtudes e glórias de um modelo prestigioso, pela identidade onomástica". (apud Manoel Pinto Ribeiro, 2011).

3)) Mário Souto Maior reuniu num livro "Nomes próprios pouco comuns", que é a sua grande contribuição ao estudo da antroponímia brasileira. Vejamos alguns exemplos:
-Antônio Dodói; 
-Antônio Manso Pacífico de Oliveira Sossegado; 
-Magnésia Bisurada do Patrocínio; 
-Naída Navinda Navolta Pereira;
- Abecê Nogueira;
- Barrigudinha Seleida;
- Eclesiaste Cardeal da Costa;
- Gilete Queiroga de Castro.
Nas redes sociais também há inúmeros exemplos de nomes extravagantes.

Referências 
BUENO, Silveira. Gramática normativa da língua portuguesa: curso superior.7.ed. São Paulo: Saraiva,1968.

RIBEIRO, Manoel P. Gramática aplicada da língua portuguesa. 20.ed. Rio de Janeiro: Metáfora editora , 2011.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

ADVÉRBIOS podem exercer a função de SUJEITO ?

Dentro da tradição gramatical,  o advérbio normalmente só exerce função de adjunto adverbial.

Porém,  além de poder ser predicativo do sujeito (A vida é ASSIM), ele poderá ser SUJEITO,  segundo os  estudiosos: Evanildo Bechara(2006), Eneida Bomfim(1988), Cláudio Cezar Henriques(2005). Vejamos exemplos da estudiosa Eneida Bomfim, os cinco primeiros, e do gramático Evanildo Bechara, os dois últimos:
 1) HOJE e AMANHÃ são dias de festa. 
2) ONTEM foi um dia péssimo. 
3) AMANHÃ será outro dia.      
4) AQUI é o melhor lugar do mundo. 
5)  continua um paraíso.
6) HOJE é segunda-feira. 
7) AQUI é ótimo para a saúde.

Segundo Henriques (2005): "A função de sujeito não é privativa de substantivos, pronomes e numerais. Os advérbios de base nominal e pronominal também podem desempenhar esta é outras funções que tradicionalmente não lhe são atribuídas.

Ex.: Não gosto DAQUI. Advérbio de base pronominal como objeto indireto.  

Ex.: O filme de HOJE está bom. Advérbio de base nominal como núcleo de adjunto adnominal : a locução adjetiva , neste caso , é formada por preposição + advérbio.

Ex.: ALI parece sujo. Advérbio de base pronominal como sujeito."

Só para fechar: Adriano da Gama Kury (1991) apesar de não mencionar explicitamente, faz uma citação com advérbio como sujeito :
Ex.: AMANHÃ é feriado nacional. (Aníbal Machado).

Referências 

BECHARA, Evanildo.  Lições de português  pela análise sintática .18.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006.
BOMFIM, Eneida. Advérbios. São Paulo : Ática, 1988.
HENRIQUES, Cláudio Cezar. Sintaxe portuguesa para a linguagem culta contemporânea: teoria e prática. 5.ed. Rio de Janeiro : EdUERJ,2005.
KURY,  Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática.5.ed. São Paulo : Ática,1991. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

CONGLOMERADOS VERBAIS

Dentro da gramática normativa e dos estudos linguísticos há inúmeras denominações para este fato linguístico:
1) Conglomerado verbal (Mário Barreto/Cândido Jucá/Walmirio Macedo);
2)Construções lexicais complexas;
3) Lexia (Pottier);
4) Séries verbais de grupos fraseológicos(Lapa);
5)Enunciados fixos (Marcuschi);
6)Grupos sintáticos permanentes / lexema de mais de uma palavra (Sandmann);
7)Expressão idiomática/idiomatismo (Langacker);
8)Verbos-frases (Mário Barreto(Novos estudos de língua portuguesa(1980 [1911]);
9) verbo-suporte (support verb)( Gross).

Apesar de todas essas nomenclaturas, não é dificil entender o conceito. Então um "conglomerado verbal" é a união entre um verbo e um nome os quais formam um conjunto significativo. Eles formam "uma unidade significativa tão coesa que é impossível desfazer o grupo sem que se violente a sintaxe e significação"(Macedo,1966). Os elementos dos conglomerados verbais não podem ser analisados separadamente. Assim o conglomerado verbal, como PEGAR FOGO, só pode ser considerado como tal. Já que é diferente  semanticamente de pegar chuva, pegar resfriado, etc. "Não podemos considerar os elementos PEGAR e FOGO isoladamente porque assim estaríamos violentando a significação."(Macedo,1966).Vejamos uma lista de alguns conglomerados verbais:
Levar o diabo= desaparecer 
Mata o sono = dormir 
Fazer hora = passar o tempo 
Cair em si = refletir 
Cantar Vitória = gabar-se 
Comer mosca = bobear , deixar-se enganar 

Aí uma pequena amostra dos conglomerados verbais, há vários na nossa língua portuguesa. 

REFERÊNCIAS 
BARRETO, Mário . Novos estudos da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro, Presença, 1980.
JUCÁ FILHO, Cândido. Índice alfabético e crítico da obra de Mário Barreto. 1. ed. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa,1981.
ALVES, Eliane Ferraz. ALVES, Naiara Ferraz Bandeira.SILVA, Alessandra Nascimento da. ANÁLISE FUNCIONAL DE CONSTRUÇÕES LEXICAIS COMPLEXAS EM TEXTOS ADMINISTRATIVOS ESCRITOS NO SÉCULO XVIII.
ANAIS DA XX JORNADA – GELNE – JOÃO PESSOA-PB, sem data. 
MACEDO, Walmírio. Gramática popular da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Biblioteca universal popular S.A.,1966.

sábado, 26 de dezembro de 2020

IR+IR / VIR+VIR

1)) Muitos leigos acham que esse tipo de construção ( IR+IR / VIR+VIR ) está incorreto, outros preferem não usar por achar pleonástico e, por isso, estaria errada, já outros acham "feio" dois verbos iguais juntos. No entanto, as locuções verbais formadas por IR+IR (vou ir,  vai indo...) e VIR +VIR (venho vindo, vem vindo...), apesar de consideradas por alguns gramáticos como coloquiais, são consideradas corretas pelos seguintes gramáticos (Celso Pedro Luft (2002), José Maria da Costa (2004), Fernando Pestana (2019), Eduardo Carlos Pereira (s/d), Cláudio Moreno).

2)) Costa (2004) afirma que "expressões como vai indo, vem vindo, há indiscutível cunho pleonástico, são, porém, ambas formas corretas, e podem ser empregadas normalmente no vernáculo."

3)) Portando, neste caso em que os verbos IR/VIR acabam sendo auxiliares de si mesmos, estas são construções perfeitas e corretas da língua portuguesa culta. 

Referências

COSTA, José Maria da. Manual de redação profissional. 2.ed.Campinas: Millenium, 2004.

LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência verbal. 8.ed. São Paulo : editora Ática, 2002. 

PEREIRA, Eduardo Carlos. Gramática expositiva : curso superior.  94.ed. São Paulo: Companhia editora nacional, sem data. 

PESTANA, Fernando. A gramática para concursos públicos. 4.ed.  Rio de Janeiro. Editora método,  2019.

"H" aspirado

 

Toda gramática normativa ensina que a letra "h" é uma letra etimológica e que não tem som, mas...

Contrariando a tradição gramatical há um novo fenômeno fonética , em que a letra "h" é pronunciada em algumas palavras, principalmente de origem inglesa. Vejamos algumas palavras do Português moderno no qual o "h" tem som: Hanói, handebol,hanseníase, hóquei, bahamense, jihadista,saheliano,bahaísmo, hobbesiano, hegeliano,etc. 
A palavra inglesa handeball, por exemplo , é pronunciada no Brasil, como "randebol", é em Portugal,  a grafia é andebol, é assim pronunciam por lá. Outro exemplo :

  hóquei  (inglês)
  Óquei (Portugal)
  Róquei (Brasil) 

          Podemos perceber que esse "h" tem o som correspondente ao nosso "r" inicial brasileiro. Apesar dos puristas não aceitarem tal pronúncia,  os fatos linguísticos provam o contrário. 
Muitos neologismos ingleses possui esse som: Hilton, hacker, hobby, hip-hop, Hollywoodiano entre outros. E há alguns japoneses, por exemplo : Honda, Yokohama, hashi, etc. 
       Enfim, o “h” aspirado que  existe em aportuguesamentos, a esse fenômeno linguístico chamamos de evolução fonética, quem sabe em breve não aparece registrado nas nossas principais gramáticas normativas.

Referências 
O “h” não mudo (ou h aspirado) em português: handebol, hóquei, jihadista, bahamense, Hanói, bahaísmo, etc. Acessado 25 de Dezembro de 2020. 
https://dicionarioegramatica.wordpress.com/tag/h-portugues/?iframe=true&preview=true/feed/

sábado, 5 de dezembro de 2020

FATOS DA LINGUAGEM, de HERÁCLITO GRAÇA.

Para quem é estudioso da língua,  vale a pena ter esta bela edição de FATOS DA LINGUAGEM (2005 [1904]), de Heráclito Graça, produzida pela Academia Brasileira de Letras(ABL), cujo o diretor é Evanildo Bechara. Esta é uma edição fac-símile muito bem feita, tendo todo um cuidado editorial . As fontes usadas são muito bonitas. 
O livro é composto de artigos publicados em jornal, depois transformado em livro, cuja a primeira edição é de 1904, a segunda de 1968 e esta de 2005. Basicamente, no livro, Graça crítica algumas lições errôneas de Cândido de Figueiredo,  consultor de dúvidas gramaticais num outro jornal. 
Portanto, o livro é um clássico da filologia brasileira do início do século XX, tendo um valor histórico, sendo fácil encontrá-lo nos sebos virtuais.

OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE : PORQUÊ, PORQUE, POR QUÊ e POR QUE

Quem nunca teve dúvidas de quando usar um desses quatros porquês? Se tem um assunto espinhoso de língua portuguesa é este.  1) A...