sábado, 26 de dezembro de 2020

IR+IR / VIR+VIR

1)) Muitos leigos acham que esse tipo de construção ( IR+IR / VIR+VIR ) está incorreto, outros preferem não usar por achar pleonástico e, por isso, estaria errada, já outros acham "feio" dois verbos iguais juntos. No entanto, as locuções verbais formadas por IR+IR (vou ir,  vai indo...) e VIR +VIR (venho vindo, vem vindo...), apesar de consideradas por alguns gramáticos como coloquiais, são consideradas corretas pelos seguintes gramáticos (Celso Pedro Luft (2002), José Maria da Costa (2004), Fernando Pestana (2019), Eduardo Carlos Pereira (s/d), Cláudio Moreno).

2)) Costa (2004) afirma que "expressões como vai indo, vem vindo, há indiscutível cunho pleonástico, são, porém, ambas formas corretas, e podem ser empregadas normalmente no vernáculo."

3)) Portando, neste caso em que os verbos IR/VIR acabam sendo auxiliares de si mesmos, estas são construções perfeitas e corretas da língua portuguesa culta. 

Referências

COSTA, José Maria da. Manual de redação profissional. 2.ed.Campinas: Millenium, 2004.

LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência verbal. 8.ed. São Paulo : editora Ática, 2002. 

PEREIRA, Eduardo Carlos. Gramática expositiva : curso superior.  94.ed. São Paulo: Companhia editora nacional, sem data. 

PESTANA, Fernando. A gramática para concursos públicos. 4.ed.  Rio de Janeiro. Editora método,  2019.

"H" aspirado

 

Toda gramática normativa ensina que a letra "h" é uma letra etimológica e que não tem som, mas...

Contrariando a tradição gramatical há um novo fenômeno fonética , em que a letra "h" é pronunciada em algumas palavras, principalmente de origem inglesa. Vejamos algumas palavras do Português moderno no qual o "h" tem som: Hanói, handebol,hanseníase, hóquei, bahamense, jihadista,saheliano,bahaísmo, hobbesiano, hegeliano,etc. 
A palavra inglesa handeball, por exemplo , é pronunciada no Brasil, como "randebol", é em Portugal,  a grafia é andebol, é assim pronunciam por lá. Outro exemplo :

  hóquei  (inglês)
  Óquei (Portugal)
  Róquei (Brasil) 

          Podemos perceber que esse "h" tem o som correspondente ao nosso "r" inicial brasileiro. Apesar dos puristas não aceitarem tal pronúncia,  os fatos linguísticos provam o contrário. 
Muitos neologismos ingleses possui esse som: Hilton, hacker, hobby, hip-hop, Hollywoodiano entre outros. E há alguns japoneses, por exemplo : Honda, Yokohama, hashi, etc. 
       Enfim, o “h” aspirado que  existe em aportuguesamentos, a esse fenômeno linguístico chamamos de evolução fonética, quem sabe em breve não aparece registrado nas nossas principais gramáticas normativas.

Referências 
O “h” não mudo (ou h aspirado) em português: handebol, hóquei, jihadista, bahamense, Hanói, bahaísmo, etc. Acessado 25 de Dezembro de 2020. 
https://dicionarioegramatica.wordpress.com/tag/h-portugues/?iframe=true&preview=true/feed/

sábado, 5 de dezembro de 2020

FATOS DA LINGUAGEM, de HERÁCLITO GRAÇA.

Para quem é estudioso da língua,  vale a pena ter esta bela edição de FATOS DA LINGUAGEM (2005 [1904]), de Heráclito Graça, produzida pela Academia Brasileira de Letras(ABL), cujo o diretor é Evanildo Bechara. Esta é uma edição fac-símile muito bem feita, tendo todo um cuidado editorial . As fontes usadas são muito bonitas. 
O livro é composto de artigos publicados em jornal, depois transformado em livro, cuja a primeira edição é de 1904, a segunda de 1968 e esta de 2005. Basicamente, no livro, Graça crítica algumas lições errôneas de Cândido de Figueiredo,  consultor de dúvidas gramaticais num outro jornal. 
Portanto, o livro é um clássico da filologia brasileira do início do século XX, tendo um valor histórico, sendo fácil encontrá-lo nos sebos virtuais.

domingo, 15 de novembro de 2020

O que é "SUJEITO PLEONÁSTICO" ?


 O sujeito pleonástico ou sujeito  duplo é um assunto pouco abordado pelos gramáticos.

O pleonasmo consiste numa repetição, "para fim expressivo, de termo já enunciado em determinada função sintática."(Kury,1991). Ex.: Os medíocres, ESSES  deixam-se levar sem resistência na torrente das inovações. (Mário Barreto apud Othon M. Garcia (2006).

Esta repetição é utilizada por uma necessidade expressiva, ou seja, um reforço para enfatizar o termo repetido. A repetição do sujeito, como nos lembra M.P. Ribeiro (2011), pode surgir depois de verbos causativos e sensitivos. Além disso, Ribeiro (2011) diz que o termo que se tornará pleonástico, ficará no início da frase. E que consiste  na antecipação de um termo nominal da oração, que depois se relembra, no lugar próprio, com um pronome na mesma função sintática.(Kury,1991).

Vejamos o exemplo de Ribeiro (2011):
Ex.: O MENINO (sujeito)/que veio comigo/ mandei-/O (sujeito) voltar.
 
Kury (1991):
"'Mas AS COISAS FINDAS,
muito mais que lindas,
ESSAS ficarão'(C.Drummond )
O pronome ESSAS , equivalente de AS COISAS FINDAS, é sujeito pleonástico."
 
Carlos Góes (1931) apresenta os seguintes exemplos de reforço do sujeito:
A)  O sujeito é repetido, porque se lhe segue um, ou mais vocativos: 
Ex.: Tu só, TU, puro amor... (Camões)

B) O sujeito é repetido, porque é cortado de orações incidentes :
Ex.: TU, QUE DIRIGISTE MEUS PASSOS...Tu, A QUEM DEVO todas as minhas inspirações...

C) O sujeito é repetido por ênfase :
Ex.: Este, ESTE é o meu Deus (Garrett).

Ex.: E se a lei, ESSA lei nefanda, batesse à minha porta... (Ruy Barbosa)

D) O sujeito é repetido por um pronome :
Ex.: O peito, ESSE, ESSE mal contido amor transborda (Machado de Assis)

E) O sujeito é reforçado por um expletivo idiomático :
Ex.:Faltam ELLES homens (Teix.de Vasc.)

E Mestre Said Ali (1964,p.105) afirma que para representar pleonasticamente o sujeito usa-se ESSE/ISSO:
EX.: A sciencia, ESSA é invulneravel (C.Castelo Branco). 

Enfim, apesar de não recomendado na escrita culta, não há problema na escrita literária que visa registrar este fenômeno linguístico. 

Referências 

ALI, M.Said.Gramática secundária e Gramática histórica da língua portuguesa.  Brasília : UnB, 1964. 

GÓES, Carlos. Syntaxe de regência.3 ed. Petrópolis, L.Silva & Cia, 1931.

KURY,  Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática . 5.ed. São Paulo : Ática, 1991. 

RIBEIRO, Manoel P. Gramática aplicada da língua portuguesa. 20.ed. Rio de Janeiro: Metáfora editora , 2011.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

EM MÃO/ EM MÃOS

Olhe para imagem acima e repare no ensino raso. Quando usar em mão e em mãos? 

1) Dicas de português culto se proliferam pelas redes sociais e os malefícios estão nestas postagens que ensinam errado.  E não são poucas dicas cheias de incorreções.  Aff !!!

2) EM MÃO/ EM MÃOS (E.M.)👉 segundo Domingos P. Cegalla(2008, p.149): "expressões que se usam para indicar que uma correspondência ou uma encomenda devem ser entregues diretamente ao destinatário por um particular e não pelo correio. As duas formas são corretas, mas no Brasil se emprega geralmente EM MÃOS : entregar uma carta EM MÃOS  (ou EM MÃO )."

3) Estes gramáticos, assim como o citado acima, aceitam as duas expressões : Fernando Pestana, Pasquale C.Neto, Antenor Nascentes, Napoleão M. de Almeida, Maria Helena de Moura Neves, J.M.da Costa, C.Moreno, J.Mário Costa (site ciberdúvidas ), etc. Além disso, a ABL também aceita assim como os dicionaristas : Antonio Houaiss e Caldas Aulete.(Pestana,2019). Vale ressaltar que a expressão pode ser abreviada como E.M.

Referências 
CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. Edição de bolso. 2.ed.Rio de Janeiro : lexikon; Porto Alegre,RS: L&PM,2008.
COSTA, José Maria da .Em mão ou Em mãos?. Acesso em 05 de julho de 2020.
COSTA , José Mário. A expressão «em mão(s)». Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Consultado em 05-07-2020.

NASCENTES, Antenor. Dicionário da língua portuguesa(ABL). Bloch editores, sem ano. 

PESTANA, Fernando . As dúvidas de português mais comuns em concursos . E-book.site da editora Gen.2019. 

domingo, 8 de novembro de 2020

A pronúncia da palavra SINTAXE

Há divergências entre os gramáticos e dicionaristas com relação à pronúncia de sintaxe


1) É bem sabido daqueles que estudam a nossa amada língua que a letra X tem variados sons :
A) tóxico  (ks/cs)
B) êxito  (z)
C) têxtil  (s)
D) sintaxe (ss)
E) enxame (x)

2) O Vocabulário ortográfico da língua portuguesa (VOLP), da ABL, Silveira Bueno, Antenor Nascentes (Dicionário da língua portuguesa (ABL)) e os dicionários Michaelis e Priberam confirmam que o X em sintaxe tem som de ss

3) Entretanto o dicionário  Caldas Aulete e o gramático  Cegalla (2008, p.385) abonam a pronúncia de (cs)[sintáksi] também , além de ss . Já Evanildo Bechara (2009,p.80) e Manoel P. Ribeiro (2011, p.64) dizem que o som é  de  s. 

4) Para completar vejamos esta resposta do site Ciberdúvidas, de13 março 2002,  sobre a pronúncia de x em sintaxe: " À exceção do dicionário Aulete digital, que regista também a pronúncia /cs/ de sintaxe, os demais dicionários de referência para a língua portuguesa atestam apenas a pronúncia com /ss/. É o caso do Dicionário Houaiss, do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, do dicionário da Porto Editora, do Michaelis e do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto Editora.
Sintaxe é palavra atestada, pelo menos, desde 1699 (datação do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, pelo que se torna provável que foi pela via latina que ela se enraizou em português, com a prolação similar a  próximo e a máximo, por exemplo. Sinta[ss]e  é, portanto, a pronúncia tradicional e a que é geralmente recomendada na lexicografia, incluindo os vocabulários ortográficos existentes, tanto nos posteriores ao Acordo Ortográfico de 1990,* como nos anteriores**.
* Vocabulário Ortográfico e Remissivo, de Gonçalves Viana, 1913
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia das Ciências de Lisboa, 1940
Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, 1966
**Vocabulário Ortográfico do Português, ed. Portal da Língua Portuguesa
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, coord. de João Malaca Casteleiro (Porto Editora, na Infopédia )
Vocabulário Ortográfica da Língua Portuguesa, da Academia da Ciências de Lisboa (em linha, 2018)
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras.

Também se encontra a indicação de que o x de "sintaxe" se pronuncia [s] no Manual de Língua Portuguesa, de Paul Teyssier (Coimbra Editora, 1989, p. 59) .
A pronúncia de sintaxe está descrita com [s]  também no livro Fonética do Português Europeu, de António Emiliano (Guimarães Editores, 2009, p. 106), sendo este vocábulo associado a palavras como aproximar, reflexão,  máximo e próximo.
Finalmente, refira-se que no Acordo Ortográfico de 1945 (Documento n.º 2 : Bases Analíticas do Acordo Ortográfico de 1945 – 6) já se fazia referência à pronúncia de sintaxe, distinguindo a pronúncia da sua origem etimológica: «sintáctico, como sintaxe (x=ss, mas etimologicamente cs)» 
Carla Marques/Carlos Rocha"
 
5) Acrescento que o acordo de 1945 não foi seguido pelos brasileiros. Mas o de 1943, continuou em vigor e com acréscimos com a reforma de 1971. No documento de 1943, colabora a pronúncia ss. E, por causa de uma divergência, cria-se uma treta danada.
 
Referências 
 
BECHARA, Evanildo.  Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira & Lucerna, 2009.

BUENO, Silveira. Gramática normativa da língua portuguesa: curso superior.7.ed. São Paulo: Saraiva,1968.


CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. Edição de bolso. 2.ed.Rio de Janeiro : lexikon; Porto Alegre,RS: L&PM,2008.


NASCENTES, Antenor. Dicionário da língua portuguesa(ABL). Bloch editores, sem ano. 


PESTANA, Fernando. A gramática para concursos públicos. 4.ed.  Rio de Janeiro. Editora método,  2019.

'Pronúncia do x: xenofobia e sintaxe. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, Consultado em 06-07-2020.

RIBEIRO, Manoel P. Gramática aplicada da língua portuguesa. 20.ed. Rio de Janeiro: Metáfora editora , 2011.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Elipse verbal, zeugma e vírgula



Alguns autores preferem diferenciar elipse de zeugma.

A distinção entre elipse e zeugma 

A elipse é uma figura de sintaxe que omite um termo da oração, mas que é facilmente identificável pelo contexto.
 Há elipse do pronome sujeito,do objeto direto , do pronome relativo que , das preposições de , em e para , das conjunções , de uma oração, verbo+predicativo e do verbo. 
Ex.: "Um dos filhos trabalha na fábrica; o outro, no Campo". [=o outro TRABALHA no campo]. (Cegalla,2008).


A zeugma é  um tipo de elipse que oculta um termo referido antes, "o termo subentendido pode ter forma flexionado diferente da do termo mencionado pouco antes"(Said Ali,1964). Alguns autores não fazem a distinção. 
Ex.: Nem ele nos ENTENDE , nem nós  [ENTENDEMOS] a ele.

Em concursos públicos não é feita tal distinção . Vejamos uma questão:
(UFGD–Administrador – 2019) Agora, com técnicas de microscopia, viram que, nas flores do cajuzinho e 
da mangueira, as glândulas de odor estão na base interna das pétalas. A primeira produz 39 compostos 
voláteis, a segunda, 21. 
Julgue o item. A vírgula no termo destacado marca a omissão de uma palavra. 
GABARITO: Correta. Vejamos o comentário de um professor famoso de um cursinho on-line :"A vírgula foi usada para marcar a elipse do verbo “produzir”. Esta é a vírgula da “zeugma”, um tipo específico de elipse, que indica a omissão de uma palavra/expressão já citada no texto. A primeira produz 39 compostos voláteis, a segunda, 21. A primeira produz 39 compostos voláteis, a segunda produz 21. Questão correta."
Está questão está errada ,segundo Fernando Pestana. Primeiro só poderia haver vírgula entre "segunda" e "21" se houvesse ponto e vírgula antes: "A primeira produz 39 compostos voláteis; a segunda, 21." Não havendo ponto e vírgula , "a elipse verbal (omissão do verbo) não será marcada por vírgula"(Pestana,2019), o correto seria: "A primeira produz 39 compostos voláteis, a segunda 21.
Enfim, mais um ensino errado.

Referências 
ALI, M.Said.Gramática secundária e Gramática histórica da língua portuguesa.  Brasília : UnB, 1964. 

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. Edição de bolso. 2.ed. Rio de Janeiro: lexikon; Porto Alegre, RS: L&PM, 2008.

PESTANA, Fernando. A gramática para concursos públicos. 4.ed.  Rio de Janeiro. Editora método,  2019.

OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE : PORQUÊ, PORQUE, POR QUÊ e POR QUE

Quem nunca teve dúvidas de quando usar um desses quatros porquês? Se tem um assunto espinhoso de língua portuguesa é este.  1) A...